Dr. Aguinaldo Severino’s Bloomsday Tale of Two Cities (in Portuguese and English)

Comecei a ler “Ulysses” no início dos anos 1980, quando vivia em São Paulo, a maior cidade da América Latina. O ano eraodo centenário do aniversário de Joyce, 1982. Estava eu no início de minha graduação(sou físico de formação). A bem da verdade demorei um bom tempo para terminar de ler. Foisó no final de 1983 que alcancei fechar o livro e ficarsatisfeito com o fim desta primeira leitura. A tradução que li foi a pioneira em português, assinada pelo filólogo e diplomata Antônio Houaiss, publicada originalmente em 1966. Passou o tempo, continuei meus estudos, terminei minha graduação e já estava tentando terminar meu doutoramento quando, em 1988,soube da notícia que três seminaise bastante respeitados
tradutores e poetas brasileiros, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, organizariam um pioneiro Bloomsday em São Paulo. Esses grandes poetas eram secundados por jovens pesquisadores e acadêmicos universitários, além de agitadores culturaisda cidade,sobretudomúsicos, atores, poetas, escritoresetradutores, ou seja, boa parte do mundo cultural paulista foi atraído pela ideia de comemorar o dia de Bloom, encantados pelaproposta original, que erae é ade apresentar James Joyce em um ambiente não acadêmico, porém mantendo todo o rigor de análise e cuidado que aobra de Joyce merece. Enfim, otempo passou e o Bloomsday de São Paulo continua a ser comemorado ininterruptamente desde 1988 e tornou-se uma referência para todos os demais eventos deste tipo que passaram a ser organizados em muitas outras cidades brasileiras.
Participei de todos os primeiros Bloomsday paulistanos,no período de 1988 a 1993. Todavia, no início de 1994, já doutor em Física, alcancei uma posição permanente como professor na UFSM, uma universidade federal brasileira, localizada em Santa Maria,uma cidade de 300 mil habitantes, bem próxima à fronteira sul brasileira,perto do Uruguay e a 1200 Kmde São Paulo. Profissionalmente era o certo a se fazernaquele momento, mas comentei, amuado,com colegas da UFSM,que deixaria de comemorar um Bloomsday pela primeira vez em muitos anos. Eles, curiosos, se animaram com a ideia do evento. Com apoio de vários colegas da UFSM organizamos um primeiro BloomsdaySanta Maria. Foi uma festa muito divertida. De1994 em diante já organizamos o Bloomsday em Santa Maria 27 vezes. Nos últimos dois anos, osde pandemia COVID,não o fizemos, mas agora em 2022, o ano do centenário do “Ulysses”, certamente voltaremos a nos reunir. A cada ano a programação tem alguma particularidade que a identifica em relação as demais. Num ano, em parceria com um jornal local, conseguimos que um ator vestisse roupas do início dos anos 1900 e fizesse
passeios pela cidade, emulando as situações que acontecem no livro; num outro ano contamos com a participaçãodo professor Caetano Galindo, tradutor de uma das versões do Ulysses para o português; também já filmamos o evento, para produzir material que já foi utilizado em documentários produzidosnos EUA (Joyce to the World, 2004) e na Irlanda(Imagining Ulysses, RTÉ, 2004). Em uma outra ocasiãoorganizamos uma exposição com volumes com diferentes traduções do livro(nosso acervo de edições engloba pelo menos 15 línguas diferentes). Já organizamos também caminhadas pela cidade, como fazem os personagens do livro,assim como leituras públicas das passagens mais poderosas do livro, assim como festivais gastronômicos com comida irlandesa e exposição de livros arte/objetoinspirados em passagens do livro. Enfim, acada ano escolhemos um tema ou abordagem que possa ajudar na divulgação, efeméride, acaso ou aniversário de alguém relacionado de alguma forma o Ulysses e a obra de James Joyce.

 

Cabe aqui uma última e breve digressão. Afortunadamente, em português, temos várias traduçõeshoje do Ulysses, que implicaram, cada uma a sua vez, emrenovar o interesse dos leitores. No Brasil, ou seja, no português falado no Brasil, já foram publicadas três traduções (Antônio Houaiss, 1966; Bernardina Pinheiro, 2005eCaetano Galindo, 2012) e uma quarta está prometida para ser publicada neste Bloomsday de 2022. Já no português falado em Portugal existem duas outras traduções publicadas (João Palma-Ferreira, 1989e Jorge Vaz de Carvalho, 2014). Dezenas de outros tradutores se envolveramnas demais obrasde Joyce(nos seus poemas, ensaios, contos e no Finnegans Wake).

 

Finda essa digressão, me despeçoe digo isso: Já estive em Dublin e percorri os caminhos de Bloom por lá. Mas fiz isso não em um Bloomsday, e sim os dias de morte e nascimento de Joyce, no inverno irlandês. Fui a Martello Tower num 02 de fevereiro e acredito ter feito todos os passeios possíveisem quinze dias de encanto. Acredito, que antes de morrer, talvez depois de estar aposentado e sem compromissos letivos em junho (no hemisfério sul estamos justamente no final do período letivo nesta época), terei a chance de ir a Dublin em um 16 de junho e lá me divertirdignamente. Com isso, esse meu conto talvez um dia seja sobre três cidades. Enquanto isso, apenas digo, “no ano que vem, em Dublin, a New Bloomusalem”.

Feliz Bloomsday para todos os joyceanos do planeta. Saudações de Santa Maria. Grato.

Aguinaldo Medici Severino

 

English Translation

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